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domingo, outubro 3

Do peso ao arraste.


A cada movimento, a culpa.
A quem recusou um almoço, as colheradas progressivamente se tornam cada vez mais pesadas. A culpa é tudo o que ocupa os órgãos exasperados que irremediavelmente gemem de dor.
De dor do excesso.
De dor do incansável.
De dor das tentativas fracassadas em poder lutar contra as paredes de tecido que os impedem de explodir.
De culpa.
De culpa.
A pouca comida que resta parece um banquete. A fome já desconhecida se esvazia e se enche culposa.
Tudo o que resta é culpa.
Vigora-se o estômago, nutrindo o desejo de sobreviver na tentativa arrastada de lutar contra as intempéries da vida que o enchem de mais desejo de dolo.
E o corpo pesado imagina-se sustentado, até que no só, o olhar para longe e o céu nebuloso, a imagem pára. O olhar cansado de uma mulher analisa fixamente a personificação da culpa. Leva-lhe a palavra mentindo. O sorriso santificado se acende em bondade a quem não merecia. O corpo se liberta. A mente se liberta. O hoje aparece em exclusão do passado e todos os movimentos se revezam.
Em seu real teor.
Leve.
Fig.: El Hechizo de Merlin, Burne-Jones

sexta-feira, junho 18

Dicionário


Antes da contribuição de hoje preciso dizer em primeira pessoa que não posso agir na negligência de que há neste canal autor e leitores; é preciso então fazer um esclarecimento. Texto e imagem aqui se entrelaçam em um princípio fundamental: um não é legenda para o outro
***
A história é mais ou menos assim. Há quem se identifique com ela.
Na primeva, a referida paixão era tomada por livros de figuras mágicas e contos de fadas. Na ausência da habilidade de assimilar a leitura das palavras com o que se escutava ou falava, enquanto alguém lhe contava a estória, ficava a admirar as imagens. Mas, o que se há de fazer com a verdade de que “texto e imagem entrelaçam-se em um princípio fundamental [de que] um não é legenda para o outro”. Era necessário aprender a codificar as palavras e entendê-las sozinha para que fosse possível cantar o hino da independência e fomentar sua própria paixão.
Ganharam destaque os livros didáticos, ensinando a ler, contando estorinhas batidas e contando musiquinhas infantis. Passar muito tempo com esse tipo podia até ser legal, mas, era aprisionamento demais, maçante demais: tinha que fincar os pés no chão. Necessário seria se desprender de novo. Mas que nada. Praga que se alastra por todo tempo, por todo espaço, acaba o inútil se tornando útil quando os parâmetros se confundem e a utilidade ganha diversos valores.
Ai, ai! Mas é aí que se foi possível alcançar os livros da viagem, os incapazes de se reduzirem a uma só palavra, ou texto, ou interpretação, o que é a compreensão se se representada a materialização do infinito palpável. Só pode ser magia de alimento para a limitação da racionalidade humana e o freio para a irracionalidade. Não. Tem um tipo de livro que pode, mas não deve acompanhar quem permanece no almejo de se desprender. Limitantes, também maçantes, finitos e capazes de cegar. O dicionário. Substantivo masculino: 1- Enquadrador de sentidos na busca de uma comunicação objetiva, sempre antiquado. 2 – Aquele a quem se recorre na busca de significação para inteligentar o emburrecer. Triste fim e interrupção a quem lê. Pausar a infinitude da imaginação para recalcar o pensamento no cimento do dicionário: só pode ser coisa de realidade positiva, e sombria.
Então se ergue o timbre da razão, monótono em canto gregoriano:

_ Há ordem e progresso se continuais a ler, mas não deixe de me visitar com amor, mero mortal, por que sabes que precisarás de mim. Pois eu, que aqui estou, por vós, espero.