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domingo, janeiro 30

Quando te atrapalham a escrita

Conversa bastante afinada entre papéis de carta. Séculos atrás que talvez pudessem ser tão mais atuais, não fossem as formalidades das palavras e os belos costumes de civilidade arriados e esquecidos. Dois que não se conheciam, que, nem ao menos conterrâneos eram. Por uma escolha da probabilidade, da sorte, ou do destino – como dizem – aquela carta, vinda de muito longe, escrita tão dolorosamente – às pressas – a contar os novos ares acabou por restar na caixa de correios de quem ainda não entrara na história.
Foi quando a parte que se segue foi lida pela primeira – das muitas outras – vezes em que o interlocutor iria parar-se diante daquelas centenas de palavras ao observar apenas algumas e agarrar-se à carta como quem pede um abraço singelo no físico, mas de tão grande voluptuosidade na alma. “Quem proclama o fim, dá o recomeço. Quem sofre o fim, cala-se”, dizia o texto em questão. Algo, que para o leitor referido, parecia ter sido escrito como se retirado de outro canto, relevante ou não, e simplesmente jogado. Assim, essa parte tornou-se um trecho ao mesmo tempo frio e quente na sua vida. Um trecho desgarrado, um só texto. Inteiramente sem contexto. E depois, de tendo tão vivido, tão sonhado, tão acordado e tão recebido muitas outras cartas do remetente desconhecido a história terminou, sem ao menos ter um dia começado. E daí tudo virou-se como realidade, observada através da ilusão de um espelho.

sexta-feira, novembro 20

As cidades não têm nome


Um tiro aqui e logo, tiro em qualquer lugar.
Um perdido aqui e logo, perdidos em nenhum lugar.
Sem paz aqui, muito menos em outro lugar.
Oh fleuma! Oh fleuma!
Pra onde vai pleonasta fleuma?

sexta-feira, junho 5

Gente Grande

Enquanto aquilo em meados da década de 30:

_ Mamãe, quem é esse homem que nos fala de forma a incitar os animos de todos que o assistem?

_ Quem são esses homens uniformizados que andam num ritmo fortemente marchante?

_ Não consigo entender essas palavras, mas o quão são belas essas bandeiras hasteadas intercaladamente envolvendo não só o estádio, mas a todos nós! Quereria tanto alcançá-las... Erguerei meus braços da mesma forma como faz toda essa multidão.

_ Mais bonito ainda são todas essas grandiosas construções! Tudo aqui parece muito bonito, não acha?

_ Aqueles homens e aqueles sapos gigantes meio quadrados... O que eles fazem? Para que servem? Para quem servem?

_ O bigode daquele homem é mesmo muito engraçado, mas... por que o seu olhar é tão duro? Essa assimetria medonha pertecente a sua face me deixa...

_ Mutter! Me segura? Quero ir pra casa, pareço estar tão longe. Acho que não sei o que significa isso. O que é Nationalsozialismuse?