domingo, março 27

Apenas um rascunho


Decidi não maltratar os meus rascunhos,

tão preciosos.

E nem rabiscá-los,

por isso os guardo.


Que tal reaproveitá-los?

Frente e verso.

E não deixar que nenhum espaço branco

ocupe o que é feito do meu coração.


Reaproveitando o reaproveitável.

Sem linhas,

Pontos ou caracteres.


E colecionando,

a caixinha pequena vai ficando cada vez menor.

De belíssimos restos, decompostos em poucas palavras.

Pequena verdade na felicidade dos caracóis


Ontem acordaram com vontade de chorar os caracóis. Sem grandes margens ou perspectivas imaginaram que não valeria os pequenos passos dados com tamanho esforço. Sonhando voar, os caracóis ironicamente se agarraram ao chão, como nunca. Temiam na verdade o poder voar. Eles eram caracóis, afinal. E temiam também o desejo. Então eles pararam, sem vontade de nada, pararam. Foi quando o céu escureceu e as estrelas caíram que mais um dia se passou, assim como as esperanças. E à medida que elas caíam cada vez mais perto ao chão, eles aproximavam-se da arrebatadora imensidão do céu.

quarta-feira, março 9

Regras num descompromisso ao amor

Eu caminhava enquanto relanceei um cena amargadoramente transportável a um tempo desconhecido e não pertencente mim.
Naquela casa, baixa, de grades que me permitiam presenciar da janela a velha mulher a gritar e reclamar ao seu marido a presença ao jantar toda a história começaria. Até então na minha cena só figuravam a casa, o céu e ela. Foi então que ao escutá-la berrando eu descortinei-me ao homem, impaciente na resposta, com o cigarro a segurar e andando sem satisfação nem documento, o que me faria conhecer toda a biografia daquele casal.
Foi mais ou menos assim.
Ele, no bar com os seus amigos quando ela passou. Meio embriagado ao notá-la mudaria toda a sorte de seu destino em pensar em ter aquela formosura ao seu lado, pra sempre. Sonhou com ela dias e dias antes de descobrir quem era para ir ao seu encontro. Ela, imatura no amor, aceitou o pedido de namoro ao homem que não conhecia.
Ele, poucos meses depois, pediu a sua mão.
Então, se casaram, se mudaram, se engravidaram diversas vezes e assim a vida os levou. Ela reclamava do cheiro que ficava na casa após ele acabar com os seus vulgares maços, perdera muitos casamentos pela falta de vontade do marido. E perdera muitas amigas pelo ciúme. Deixou de ser doce com seus filhos e acabou por ser bastante infeliz quando ele chegava a casa com o cheiro de qualquer uma outra, muitas e muitas vezes. Quisera ela não tivesse passado à frente daquele bendito e abominável bar em tempos de carnaval.
E depois de muitos anos, quando muito e pouco já havia se suportado eu passei em frente àquela casa. E ele, carregando o seu vício, anos a fio, fazia com que eu soubesse exatamente o que por eles já havia passado.

segunda-feira, fevereiro 28

Ouros Negros



Era um domingo qualquer quando...
Aliás, não era um domingo qualquer. Dominava aquele aborrecido pessimismo ainda que estivesse tudo belo e que a família estivesse relativamente reunida.
Então, era um domingo qualquer no sentido de que domingo é sempre domingo, mas, além do pessimismo ultimamente reinante seria inédito o ocorrido que se segue.

Estava sozinha na sala, lendo. Ainda que meio desconfortável na poltrona, acostumada com a escrivaninha, a cadeira e tudo milimetricamente calculado, a leitura fluia como se aquelas palavras soassem naturais e não tivessem sido fruto de uma grande pesquisa de um grande pesquisador. Ia-se lá pelas tantas a explusão dos Holandeses e a fixação nas Antilhas – que trariam problemas para a produção brasileira posteriormente. Subsequente a isso vinha a parte em que o autor afirma que o trabalho escravo e o tráfico negreiro é mais rentável à grandes propriedades de terra.
Foi quando ela entrou na sala. Com aquele sorriso inocente por fora, mas, indecifrável pela gente branca por dentro que ela veio caminhando até se sentar na poltrona ao lado. Liberdade dada pelos patrões de que não haveria privações dessa natureza. Bem, eu, curiosa, pedi a ela que lesse, qualquer parte que quisesse da página. No fundo eu queria testar seu grau de leitura mas percebi que ela fluia bem apesar de não entender nada que lia. Perguntei o que ela havia lido de forma embaraçada e com atropelo de palavras. Ela deu uma gargalhada estridente e disse que não sabia, sem o menor peso na consciência ou sentimento de inferioridade, então, como eu imaginava, ela era uma analfabeta funcional.
Eu então numa atitude automática puxei o livro de suas mãos e disse: “Te explico”. Contextualizando a situação de colonização do Brasil eu foquei nas atividades produtivas, não falei de escravidão. Ela não tinha culpa de nada. Talvez eu tivesse. Ou não. O fato é que eu simplesmente recuei nos aspectos morais, detalhava descritivamente o que não omitia. Daí, ela achou muito interessante toda aquela história de associação de Portugal com a Inglaterra e a retomada de reais interesses ao Brasil já que consolidado o grito de independência. Ela gostou de saber que a história de quando saiu de casa se assemelhava um pouco à história do Brasil naquele momento e insistiu, por fim, que eu fosse a Inglaterra e não Portugal. Eu deixei. Simples e um pouco imperfeitas as associações ela pareceu entender e ficamos, as duas, satisfeitas.
Após isso, ela me disse que precisaria sair para “ver se lá fora” precisavam dela. Um tempo depois, terminando o capítulo, eu me levantei e vi que ela assistia televisão, em dia de domingo. Imagine.
Não perderia a oportunidade de perguntar: “E aí, você gosta mais da história que eu te contei ou de assistir televisão.” Imediata e logicamente eu fiquei apreensiva pela resposta. Se ela escolhesse a televisão... Então ela olhou pra mim, riu, fez cara de sabida e disse antes das imensas gargalhadas: “Mais da história, claro, aquele livro, eu achei muito importante!”
Formei uma seguidora latente de Celso Furtado.
Fim.

terça-feira, fevereiro 22

Parecia um ensaio


Eu nunca quisera estar na pele de ninguém como quis ao ver aquela menina com cerca de 11 anos passear na praça com um grupo de amigos da mesma idade. Aquela felicidade, aquele sorriso despreocupado, os cabelos castanhos, pesados e extremamente lisos ao vento de um lado para outro como quem anda sem se preocupar com os passos a qual dar: exatamente como eu era anos atrás, nessa mesma idade. E como hoje não estou. Sorrisos e passos a dar. Foi quando vendo aquela imagem que eu percebi que afinal algo convinha estranhamente. O motivo era entender o porquê de reivindicar o passado e renunciar o presente tão lutado para ser como ele exatamente é. Não há características a mudar, afinal. Foi então que eu entendi que eu não sabia verdadeiramente o que o medo era. Não tinha a menor noção ou idéia. E daí eu percebi que estava, momentaneamente, com medo. Um sentimento que de tão bobo parecia até doentio. Mas passou. Assim como a infância, que não sei mais o que é.
E chorando, como marcas infantis, alguém bastante especial e de timbre sábio me pergunta: "Afinal, qual é o tamanho do mundo que você quer?"
A resposta, eu não precisaria dar.