quinta-feira, junho 4

Verossímil Inópia Fé


Ela estava lá. Lá estava ela. A figurar dentro do ônibus, um mundo diferente. Fecham-se involuntariamente seus olhos com a luz do Sol que penetra. O Sol, “ah como ele faz bem e não é egoísta em compartilhar de sua beleza”. Ela lembra como o bem faz mal. E ao redor, os olhares. Assim como tostada ao Sol, ela seca diante essa situação de constrangimento do seu eu radiante. Mas diante dela a canção exteriorizada de uma mulher a faz pensar que não era a única a recuperar-se à energia do Sol. “...Olha para mim Senhor, como eu preciso do teu olhar, do teu olhar...” As lágrimas não se seguram e caem brilhantes à luz predominantemente penetrante. Aquela melodia significatica, ritmizada e repetida acompanhou todo um trajeto em caminhos que ela já não conhecia mais. Ela afinal estava confusa porque tudo que pensava ela já pensava o contrário. E lá estava aquela mulher trazendo consigo um mundo completamente diferente. Ela levanta-se e sai. A outra reposiciona-se em seu lugar. E acompanha até perder de vista aquela sofrida imagem com a alegria mais radiante que nunca outrora havia presenciado. Apenas aqueles olhos importavam apenas aquele brilho, cheio de fé, cheio de vida, cheios de luz.
Fig.: A Primavera, 1478, Botticelli. 203 cm x 314 cm. Galeria Uffizi, Florença

quarta-feira, junho 3

Não somente um Kami-case


Lá em baixo, repousastes os olhos da águia americana. Seu poder, sua força bem embaixo do nosso orgulho e nossa honra. Se não posso ter a conquista, alcançarei então a honra. Jogo-me nesses mares infindos pelo meu país. Reservo-me de viver e, encontro minha identidade para além desses limites. Se olhar para trás vejo que ninguém me chama, mas se para frente olho, o que vejo são os clamores do Oráculo Fundador da minha nação. Minha submissão é uma manifestação natural da minha alma, porque minha nação e a natureza são tão unidas como um. Tenho um orgulho corrente no meu sangue cultivado pelo musubi, e essa é até então a força vitalícia harmônica da minha vida. Preparo-me para o auge da harmonia em sacrifício da vida e submissão ao Imperador. Compartilho a explosão de cólera decorrente de um orgulho ferido, manifestado em irreconhecíveis expressões aos olhares de um outro. Aquelas águias lá em baixo me parecem imóveis, somente seus olhares me avassalam. Ora, eu também sou águia, mas fui cegada. Não tenho mais o poder de ver enquanto eles ainda o possuem. Isso dói, decepciona e humilha. Nunca [mesmo não aqui] hei de esquecer o que ocorreu nesses tempos de Pacifico. Não trago dor e renovar-me-ei na imensidão dessas águas. O Pacífico me abraçará numa paz grandiosa, "suportando o insuportável", descansando. Águas que me adotaram por toda minha vida, irão sempre proteger minha terra onde reina o saudoso passado samurai. Rendimento e Remissão. Males trazidos pelos conceitos do outro lado que já nem mais sei. Somente as imagens de vitória refletem incessantemente na minha memória. Render-me-ei somente e só, ao meu povo. Não chorarei. Banzai.

Fig.: TAMURA Soryu (1903) Echigo Seashore Landscape oil on silk; six-panel folding screen The National Museum of Modern Art, Kyoto

terça-feira, junho 2

Protocolado - Pág 5-6


Removido pela autora.


Fig.: O Ensaio, de Degas. 68 cm x 103 cm. Galeria de Arte, Glasgow.

segunda-feira, junho 1

Inútil a gente somos é muito útil.


A gente somos é muito útil
Pra violentar mulher, criança e jornalista X-9.

A gente somos é muito útil
Pra alojar contentos e desalojar sem teto.

A gente somos é inútil
Pra dar nome as ruas da África que não tem ninguém nem nada pra homenagear

A gente somos é muito útil
Pra fingir que não tem nada haver propagar o preconceito do vizinho doutro mundo.

A gente somos é muito útil
Pra criar fadiga e pra criar dor

A gente somos é inútil
Pra fazer a tarefa da gente

A gente somos é muito útil
Pra pixá a cidade e assaltá o trabalhador

A gente somos é muito útil
Pra falar que a culpa do outro e só eleger e não governar

A gente somos é inútil
Pra afirmar que o mundo vai ficar bom

A gente é mesmo muito inútil.
Afinal, a gente somos agente,
a gente somos a gente.

Fig.: Os Fuzilamentos de 3 de maio de 1808 (1814-1815), de Francisco Goya. 263,5 cm x 410 cm. Museu do Prado, Madri.

sábado, maio 30

Espaço Estratégico na Mémoria do Tempo


O silêncio do quarto faz salientar a música cantarolada pelos ponteiros do relógio. Bona sempre gostou da parte em que entregava seu eu àquela sinfonia dos deuses nada angustiante para ela. No fio de luz que a faz enxergar seu quadro, ela conversa com Napoleão que a ensina a ciência do emprego do tempo e do espaço – a estratégia. TIC, o tempo perdido, TAC, jamais pode ser resgatado. TIC, esse é um segundo, TAC, esse já não o é mais. Ela se sente num imenso mar de desperdício de tempo, bem no redemoinho que suga todas as gotas de segundo que a presenteia.

Aquele pingo d’água trouxe a esperança do futuro e a renovação do presente. Para ela realmente nada daquilo era tempo perdido. Seu espaço era sempre limitado, mas seu tempo era sempre infinito. Ela fazia seu tempo, e o tempo fazia ela. Estrategicamente. Talvez fosse isso o porquê dos outros não saberem utilizar seu próprio tempo tanto quanto ela. Não era privilégio, era estratégia e era arte só porque era também, ciência.

Ela tinha um céu estrelado em seu quarto e sempre dormia num céu com diamantes. Era só jogar luz no mesmo globo que é usado onde as pessoas se divertem. As luzes ao redor faziam um ambiente maravilhoso para ter belos sonhos. Tirava algum tempo para ao invés de tê-los, trocar seu globo solitário para ver os outros se divertindo. Tinha um imenso prazer em interromper seu balançado e simplesmente olhar os esqueletos se mexendo a sua volta. Ela sempre achou esse momento o máximo. Um máximo no finito que é nada mais nada menos que nada pouco. O tempo e um espaço, sustentado por um ritmo além dos segundos de um relógio. Por isso, o tempo perdido não pode ser resgatado como o tempo.

Por um momento ela deixou de ser jovem e quando voltou, com medo ficou de estar velha. Será que com mais idade teria perdido a noção do tempo? E quanto ao espaço, será que ainda continuaria sendo mesmo? Pelo sim ou pelo não, a infinitude estava naquela sinfonia dos deuses. Por isso, pelo agora ou pelo sempre, pelo tempo ou pelo espaço, talvez ela continuaria agindo da mesma forma. Não era privilégio, era estratégia e era arte porque era também, ciência.

Fig.: A Persistência da Memória (1931) , de Salvador Dalí. 24 x 33 cm. The Museum of Modern Art, New York.